Source: Instituto Humanitas Unisinos, Brazil
Date: JANEIRO DE 2011

ENTREVISTA COM DAVID PEARCE

(JANEIRO DE 2011)

QUESTIONS:

(1) Em que sentido o abolicionismo e o veganismo são importantes na construção de uma sociedade mais ética e solidária atualmente?

DP: Vamos usar um exemplo concreto. Considere um porco. Um porco possui a capacidade intelectual – e criticamente, a capacidade de sofrer – de uma criança humana. Nós reconhecemos que crianças têm direito de serem amadas e bem cuidadas. Em contraste, nós criamos e matamos milhões de porcos usando métodos que nos condenariam à prisão perpétua se nossas vítimas fossem seres humanos. Naturalmente, um porco não é um membro da “nossa” espécie. Porém, a questão não é se existem diferenças genéticas entre membros de diferentes raças ou espécies, mas sim se essas diferenças são moralmente relevantes. Ao contrário dos seres humanos, os animais não-humanos não possuem a estrutura neocortical que possibilita o uso da linguagem. Ainda assim, por que esse módulo funcional conferiria algum tipo de status moral único sobre quem o possui? Os humanos surdos-mudos deveriam ser tratados da mesma maneira que tratamos “animais estúpidos”? Intuitivamente, nós pensamos que os seres humanos são “mais conscientes” do que os animais não-humanos que exploramos. Isso acontece porque a maioria dos seres humanos adultos é mais inteligente do que a maior parte dos animais não-humanos. Mas há qualquer evidência para se fazer uma conexão entre aptidão intelectual e intensidade da consciência? O que mais impressiona é como as experiências mais “primitivas” pelas quais passamos, como por exemplo, a agonia em seu estado bruto ou o pânico cego [blind panic], são algumas das sensações mais intensas que um ser humano pode sentir, visto que a maior parte das experiências cerebrais – e.g. geração de linguagem ou prova de teoremas matemáticos – são fenomenologicamente tão frágeis quanto pouco acessíveis à introspecção. Em suma, ninguém precisa ser inteligente para sentir uma angústia profunda. Há uma corrente de evidências evolucionárias, comportamentais, genéticas e neurocientíficas que sugere que os animais não-humanos que exploramos e matamos sofrem intensamente – assim como “nós”. Então o que é preciso, creio eu, é um sentido desse “nós” mais inclusivo e solidário, capaz de abarcar todos os seres sencientes.

Um consumidor de carne poderia responder que deveríamos valorizar uma criança humana mais do que um animal não-humano funcionalmente equivalente porque a criança possui o “potencial” de se tornar um ser humano adulto intelectualmente maduro. Ainda assim, esse argumento simplesmente não funciona pelo fato de que consideramos uma criança portadora de uma doença progressiva que nunca completará o seu terceiro aniversário tão digna de amor e respeito quanto os jovens que estão se desenvolvendo normalmente. Pela mesma razão, as limitações intelectuais dos animais não-humanos são motivos para dar-lhes um maior cuidado e proteção, não para explorá-los.

Talvez uma pequena nota terminológica seja útil aqui. O termo “vegano” já está bem definido. Um vegano é um vegetariano estrito que não consome produtos de origem animal. Em contraste, “abolicionista” possui múltiplos sentidos. Neste contexto em particular, dois são relevantes. Um sentido deriva da bioética: abolicionistas acreditam que deveríamos utilizar biotecnologias para eliminar gradativamente todas as formas de sofrimento, tanto de humanos quanto de não-humanos. O segundo sentido deriva dos escritos do jurista americano Gary Francione. Francione argumenta que os animais não-humanos requerem apenas um único direito, isto é, o direito de não serem considerados como propriedade. Por conseguinte, nós deveríamos abolir o status dos animais não-humanos como propriedade. Assim sendo, é certamente possível ser um abolicionista em ambos os sentidos. Mas eles refletem perspectivas distintas: é possível ser um abolicionista num sentido e não ser no outro.


(2) Por que não deveríamos consumir produtos de origem animal?

DP: Atualmente, centenas de milhões de pessoas no mundo desfrutam de um estilo de vida vegano livre de crueldade. As tradições culturais do subcontinente indiano são em sua maioria veganas. Uma pequena, porém crescente minoria de pessoas no mundo ocidental também tem adotado um estilo de vida vegano livre de crueldade. Se alguém consome animais e produtos de origem animal é, em última instância, por uma questão de escolha. Abandonar o consumo de alimentos de origem animal não exige nenhum sacrifício pessoal heróico – apenas leve inconveniência pessoal. De fato, se alguém se arrisca a explorar a culinária vegana, há uma imensa variedade de pratos para se escolher. Isso deriva do fato de que há milhares de espécies de vegetais, contra apenas alguns tipos de carne. Então, eticamente, creio que precisamos nos perguntar: o prazer de muitos consumidores que advém do consumo da carne de animais mortos é moralmente mais importante do que o sofrimento que provém de sua produção? Podemos justificar “possuir” outro ser vivo senciente – seja humano ou não-humano? Alegando que direito?

Não tentarei combater o amoralismo ou o niilismo moral aqui. Niilistas morais asseveram que todos os julgamentos de valor são puramente subjetivos, ou seja, nem verdadeiros e nem falsos. Contudo, mesmo os niilistas morais comumente lastimam o abuso de crianças. Na medida em que o abuso infantil é moralmente errado, então é arbitrário negar que o abuso de criaturas funcionalmente equivalentes também seja moralmente errado.


(3) Quais são os desafios enfrentados pelo abolicionismo e pelo veganismo atualmente em face à indústria da carne e o cultivo maciço de soja e milho para alimentar o gado?

DP: Talvez o desafio mais difícil seja a apatia moral. George Bernard Shaw acertadamente observou que “o costume faz as pessoas conviverem com qualquer atrocidade”. Infelizmente, essa observação não é menos verdadeira hoje em dia. Se pressionadas, muitas pessoas – quem sabe a grande maioria – reconhecerá que a criação intensiva de animais é cruel. Porém, logo em seguida, a maior parte dessas pessoas dará de ombros e continuará consumindo carne e outros produtos de origem animal exatamente como antes. Outros consumidores de carne parecem pensar que as fazendas de criação apenas amontoam um pouco os animais, os quais são abatidos de maneira indolor, da mesma forma que um animalzinho de estimação é posto para dormir por um veterinário bondoso. Poucos de nós estiveram dentro de matadouros.

Nem todos os consumidores de carne são relutantes para entrar em discussões morais. Alguns intelectuais tentam racionalizar o interesse próprio com a assim chamada Lógica da Despensa [http://www.abolitionist.com/resource/logic-of-the-larder.html]. A Lógica da Despensa é o argumento de que se os animais não-humanos não fossem criados intensivamente para serem consumidos, então eles não existiriam – a suposição aqui é que a vida em fazendas de criação é ao menos minimamente válida de ser vivida. Então, em certo sentido, nossas vítimas estariam involuntariamente endividadas conosco. Tal como está, esse argumento justificaria a criação de bebês humanos para consumo, não apenas animais não-humanos. O argumento por analogia também permitiria a escravidão humana, se os escravos fossem criados para esse propósito. Mas voltando ao ponto, animais criados intensivamente passam a maior parte de suas vidas abaixo do “zero hedônico”. Em muitos casos, sua aflição é tão desesperadora que eles têm de ser impedidos de mutilarem-se a si mesmos. A crença de que os seres humanos estão fazendo algum tipo de favor aos animais criados intensivamente requer uma extraordinária capacidade de auto-engano.

É importante salientar que o tormento suportado pelos animais criados intensivamente é um sofrimento institucionalizado, não um “abuso” isolado. Companhias na “indústria” da carne têm a obrigação legal de maximizar o lucro dos acionistas. Mesmo que essas companhias quisessem tratar os animais em cativeiro de maneira menos insensível, essas reformas seriam ilegais se as medidas de bem-estar diminuíssem o valor do acionista, pois o custo empurraria as empresas “ineficientes” para fora do mercado.

Então, o que pode ser feito?

Bem, creio que uma estratégia dupla seja vital. Por um lado, precisamos nos valer de argumentos morais e campanhas políticas para a conscientização acerca do sofrimento dos animais não-humanos. Muitos consumidores de carne parecem ficar verdadeiramente chocados quando assistem filmagens clandestinas de fazendas de criação e abatedouros que expõem o que realmente acontece. “Se os matadouros tivessem paredes de vidro, seríamos todos vegetarianos”, dizia Paul McCartney. Talvez não, mas certamente o processo de conversão aceleraria. Mais controversamente, contudo, creio que precisamos de uma segunda alternativa quando a persuasão moral falha: a tecnologia da carne in vitro. O desenvolvimento de uma deliciosa carne cultivada em laboratório livre de crueldade cujo sabor e a textura são indistinguíveis da carne de animais intactos será potencialmente viável em grande escala, saudável – e barata. A primeira conferência mundial sobre carne in vitro ocorreu em Oslo, na Noruega em 2008. Eu peço a todos para que apóiem a New Harvest [http://www.new-harvest.org/] uma organização sem fins lucrativos voltada para a pesquisa que trabalha para desenvolver carne cultivada em laboratório.

Alguém poderia supor que a maioria dos consumidores de carne jamais comeria um produto “não natural” caso a carne cultivada em laboratório chegue até o mercado. Mas um momento de reflexão acerca das condições insalubres e desnaturais dos animais criados intensivamente nos mostra que o argumento “Ai, que nojo!” não tem muito efeito. De fato, o nosso sentimento de aversão pode até mesmo atuar em prol dos produtos livres de crueldade, em vez de animais despedaçados. Se os consumidores soubessem o que realmente vai junto com a carne e os laticínios – os úberes das vacas com mastites e tumores que caem dentro do leite, porcos cheios de abscessos indo direto para o moedor, gripe suína, hormônios de crescimento bovino, imensas quantidades de antibióticos que diminuem a resistência humana, contaminações desenfreadas por E. coli, etc. – então, provavelmente, não iriam querer comprá-los por qualquer preço que fosse. Sem dúvida, com a atual tecnologia, nós podemos produzir apenas carne in vitro com a qualidade similar a carne moída, mas futuramente será possível criar e produzir em massa filés. A maior incerteza é quanto tempo isso levará para acontecer.

Eu sei que muitos ativistas pelos animais ficam nauseados frente à perspectiva da carne in vitro. Eu também. A clareza moral total não seria melhor? Se eu vejo um açougue ou carne de qualquer tipo, logo penso em Auschwitz. Ainda assim, muitos consumidores de carne salivam ao sinal de carcaças de animais e afirmam que jamais poderiam desistir disso. Nutricionalmente, isso é um absurdo, mas creio que devamos adotar o desenvolvimento de carne cultivada em laboratório, pois sua produção em massa e comércio possibilitará que os moralmente apáticos também adotem uma dieta livre de crueldade. Quando a maior parte da população mundial fizer a transição para uma dieta vegana ou com base no consumo de carne artificial, prevejo que a criação de outros seres sencientes para o consumo humano tornar-se-á ilegal segundo as leis internacionais – da mesma forma que a escravidão humana hoje em dia. Naturalmente, vaticinar os valores de gerações futuras tem muitas armadilhas. Mas suspeito que nossos descendentes olharão para trás acerca de como seus ancestrais tratavam os membros de outras espécies, não apenas de maneira imoral, mas como um crime lado a lado com o Holocausto. Como observou Isaac Bashevis Singer, escritor judeu e ganhador do prêmio Nobel em Literatura, em seu livro The Letter Writer (1968), “Para os [animais], todos os humanos são nazistas, para eles é uma eterna Treblinka”.


(4) Em que medida a prática do veganismo e do abolicionismo demonstra uma preocupação com relação à alteridade e a saúde da Terra num sentido mais amplo?

DP: Um estilo de vida vegano e o comprometimento com o amplo Projeto Abolicionista certamente é capaz de expressar um grande respeito para com a vida no planeta Terra. Ahimsa significa não-agressão (literalmente: o ato de evitar a violência – himsa), e é um importante princípio das religiões do subcontinente indiano, principalmente do budismo, hinduísmo e mais especialmente do jainismo.

A abolição do consumo da carne vermelha também reduziria os gases emitidos pelos bovinos e caprinos que contribuem para o aquecimento global – um dos maiores problemas globais que enfrentamos nesse século e mais adiante. Contudo, igualmente, a prática do veganismo pode expressar uma aversão puramente secular à crueldade e ao sofrimento. Um ateu cuja vida interior é um deserto espiritual também pode aceitar o compromisso para com o bem-estar de toda a vida senciente. Para sermos bem sucedidos, precisaremos formar a mais ampla coalizão de ativistas, simpatizantes, religiosos e humanistas seculares possível.


(5) Como podemos compreender os assim chamados pós-humanos no século XXI quando milhões de pessoas continuam alimentando-se de carne e, por conseguinte, com sofrimento e morte?

DP: A adoção global de uma dieta livre de crueldade marcará uma importante transição evolucionária no desenvolvimento da civilização. Essa mudança pode levar séculos. Por outro lado, é possível que a combinação do ativismo pelos animais e do desenvolvimento da tecnologia da carne in vitro provoque uma revolução alimentar em escala global dentro de algumas décadas. Mas a transformação em pós-humanos está mais longe de alcance do que a adoção pessoal de um estilo de vida livre de crueldade. Animais “selvagens” livres também sofrem terrivelmente – devido à fome, sede, doenças e predação. A vida darwiniana na Terra é baseada em exploração – basicamente, as criaturas vivas devoram umas as outras. A “cadeia alimentar” pode aparentar ser um fato perpétuo da Natureza, lado a lado com a segunda lei da termodinâmica. Por centenas de milhões de anos isso tem sido verdade. Ainda assim, uma resposta fatalista acerca da “Mãe Natureza, rubra nos dentes e nas garras” subestima o poder transformador sem precedentes da ciência moderna sobre o mundo vivo. Recentemente, nós deciframos o código genético, a biotecnologia potencialmente nos permitirá reescrever o genoma vertebrado, redesenhar o ecossistema, regular a fertilidade de uma espécie inteira através da imunocontracepção e, finalmente, abolir o sofrimento de todo o mundo vivo [http://www.abolitionist.com/reprogramming/portugues/index.html].

No presente momento, esse tipo de cenário pode soar de maneira fantástica, para não dizer ecologicamente surreal. Porém, esse projeto é tecnicamente viável, ainda nesse mesmo século. Os maiores obstáculos para um mundo sem sofrimento são éticos e ideológicos, não técnicos.


(6) Em que sentido o veganismo e o abolicionismo depõem os seres humanos de sua posição antropocêntrica?

DP: A tradição judaico-cristã – e, de fato, todas as religiões abraãmicas – colocam o Homem no centro do universo. Essa concepção de humanidade é difícil de ser conciliada com a teoria da evolução por seleção natural e a síntese neodarwinista. Mas suponha que Deus exista. Todas as tradições concordam que o Deus Todo Poderoso é infinitamente compassivo. Se meros mortais são capazes de considerar o bem-estar de toda a criação senciente, poderíamos supor que Deus é mais diminuto que os seres humanos na vastidão ou profundidade de Sua compaixão? Essa limitação na benevolência divina parece pouco coerente. Lembre-se de como o Livro de Isaías prevê o dia em que o leão se deitará junto ao cordeiro. Bem, a habilidade humana pode fazê-lo – mas não apenas através de orações. Um mundo livre de crueldade pode surgir somente através do uso compassivo da biotecnologia: carnívoros verdadeiros e outros predadores geneticamente redesenhados [genetically re-engineering]; controle de fertilidade entre espécies; implantes de neurochips; vigilância e monitoramento via GPS; nanorobôs nos ecossistemas marinhos; e uma série de intervenções técnicas que estão além da imaginação pré-científica.


(7) Como o veganismo poderia ajudar as pessoas a mudar seus hábitos alimentares e reduzir a fome mundial?

DP: Uma transição global para uma dieta vegana livre de crueldade não ajudará apenas os animais não humanos. Essa mudança também ajudará os seres humanos desnutridos que não podem se beneficiar dos grãos que atualmente servem para alimentar os animais criados intensivamente. Para esses animais isso não é apenas cruel; também é energeticamente ineficiente. Vamos usar um exemplo: Durante as últimas décadas milhões de etíopes morreram por “escassez alimentar”, enquanto na Etiópia são cultivados grãos que são vendidos para outros países com a finalidade de alimentar o gado. Os hábitos dos consumidores de carne ocidentais elevam o preço dos grãos, dessa forma os pobres dos países em desenvolvimento não podem se dar ao luxo de comprá-los. Consequentemente, milhões deles passam fome. Em minhas obras, exploro soluções futurísticas e hi-tech para o problema do sofrimento. Mas qualquer um que realmente queira reduzir o sofrimento de humanos e não-humanos deveria adotar um estilo de vida vegano livre de crueldade.

English version: here
Author: David Pearce (2011)
Technical Review by: Lauren de Lacerda Nunes (2011)
Translation by: Gabriel Garmendia da Trindade (2011) see too 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 & 8.


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